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© busy as a bee on a rainy day

e se, de repente, o respondemos a um how are you e só nós pescámos a piada (as abelhas não voam quando chove) e vêmos que é um título fantástico para um blogue! pois.. cá estou então!

© busy as a bee on a rainy day

11
Set20

nos convívios de família a pessoa que se destaca mais é a solitária

Ana de Deus

A SOLIDÃO É A AUSÊNCIA DO OUTRO. A SOLITUDE É A PRESENÇA DO PRÓPRIO.
© Ana de Deus

 

se houvesse um observador atento aos laços afectivos, nos convívios de família a pessoa que se destaca mais é a solitária. ela não está sozinha. há uma diferença entre solidão e solitude. simplesmente toda a gente está ocupada a conversar com outra pessoa. ela viveu dez anos sedada, desaprendeu muita coisa. sente-se protegida no meio das pessoas que sempre a conheceram, por isso não se sente só. é despropositada o que por vezes é confundido com rudez. e nesses dez anos muitas pessoas convenceram-se que a sua presença ausente era a sua escolha.

contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que têm alguma noção de como o cérebro dela funciona. por exemplo, quando ela faz compras e opta por dois produtos iguais, porque ela os definiu como necessários, isso dá-lhe uma noção de que há paz nos dias, há ordem. se alguém lhe pedir um desses produtos, cria um caos em que a ansiedade e o sofrimento só páram quando a sua paz é reposta. por isso ela diz não! porque precisa de dar tempo ao tempo para alterar o que para os outros não significa nada, e que na verdade é a sua forma de lidar com o mundo.

18
Ago20

orgulho por ter sido capaz de observar-me com o coração

Ana de Deus

a angústia sufoca-nos devagar, dá-nos tempo para sentir cada detalhe que a origina e ri por nos ver impotentes, sem jogo de cintura para lidar com as emoções sem recorrer a medicamentos, mesmo quem nos acompanha agradece, sedadas tudo fica sobre controlo. só não nos ensina a viver.

por dentro sinto-me a enrolar como um bichinho de conta. o meu casulo é o acesso à internet. antes de estar medicada o riso mental tolhia-me os movimentos. o meu instinto de sobrevivência prevaleceu sempre até conseguir ajuda. os dias são mansos quando tudo acontece dentro do meu conceito de normalidade.

não é intencional, nem consciente na altura, são talvez picos de ansiedade. tentei falar com a minha enfermeira, o telefone tocou (pico de alegria) mas ela não atendeu e eu desliguei. como ela diz, basta ligar uma vez que quando puder ela liga de volta. pelo decorrer das horas rendi-me às evidências de que só será amanhã (pico de angústia).

a minha mãe é como um cavalo selvagem. ela estar em casa dia sim, dia sim, há doze anos, faz com que perca a paciência comigo. nos últimos anos tenho feito um esforço para ficar em casa sozinha. tenho tacteado até onde o riso se mantém calado. um fim-de-semana sozinha? tentei. não deu certo e deixou sequelas. mas isso agora não interessa.

há poucos dias a minha mãe zangou-se por causa do duplo confinamento e neste momento não lhe posso pedir que fique em casa, quando ela tem análises para fazer e decidiu ir ao cinema. estou à espera de uma encomenda que pode chegar amanhã e preciso que a minha enfermeira venha ter a minha casa, para a injecção (pico de ansiedade).

08
Jul20

estão em Seide a visitar o Centro de Estudos Camilianos

Ana de Deus

sala de estudo

 

há seis meses que não estou sozinha em casa. hoje a minha mãe está a passar o dia com uma amiga. estão em Seide a visitar o Centro de Estudos Camilianos. eu tomei os meus medicamentos sos para ela não sair de casa preocupada. a minha enfermeira vem cá a meio da tarde. e a minha enfermeira é espectacular, de certeza que vai acalmar-me. mas, por ora: medicamentos sos.

30
Mai20

quem tem doenças do foro mental não tem direito a férias.

Ana de Deus

saída da casca

 

como disse num dos primeiros postais neste blogue, tenho uma desordem esquizoafectiva e tenho uma reforma, por invalidez absoluta, inferior ao salário mínimo. vivo com a minha mãe que faz este ano setenta e cinco lindos anos. quando entrámos em estado de emergência, a minha mãe decretou distanciamento social cá em casa. deixámos de nos abraçar e beijar e passámos a conversar à distância ou por telemóvel. frente a frente, cada uma de nós abraça-se a si própria e enviamos beijinhos pelo ar. ontem celebrei cinquenta anos de vida e a minha mãe decidiu que íamos almoçar fora. acordei às seis, tomei um duche de água morna que o dia prometia ser quente. estava a pentear o cabelo molhado, olhei para os meus olhos e senti-me vazia. ontem de manhã escrevi à minha psiquiatra e disse-lhe que fazia anos e que me sentira vazia. hoje tinha a resposta dela na caixa de mensagens e ela disse-me que não estou vazia, tenho recuperado autonomia, e trabalho sem direito a férias. nunca tinha pensado nisso. quem tem doenças do foro mental não tem direito a férias! mas tive um dos melhores aniversários da minha vida. 

20
Out19

história de uma regressão anunciada

Ana de Deus

.. testámos e não resultou ..

 

no início do ano, a minha médica e eu estávamos as duas tão crentes que podíamos parar parte da medicação que começámos o processo entusiasmadas. na consulta desta semana ela disse-me que provavelmente é impossível cortar nas dosagens que tinha há um ano (eu concordo com ela pelo que tenho vivido). como estivemos a testar tanto com o ansiolítico como com um dos anti-depressivos o corpo limpou e agora leva cerca de cinco meses até os medicamentos voltarem a surtir todo o efeito e eu estabilizar. enquanto as águas não sossegarem estou emocionalmente mais dependente da minha mãe. aprendi que ser frágil é muito diferente de ser fraca.

02
Ago19

o que mudou com a desordem esquisitó afectiva

Ana de Deus

em dois mil e oito, passei dos quarenta e cinco quilos para os mais de cem em três meses. passei a desconhecer o meu corpo. um dia baixei-me de cócoras, para pôr comida à gata, e cai para trás devido ao excesso de peso. mas tudo começou quando na minha cabeça eu sentia-me literalmente a partir em duas. sentia-me a enlouquecer. durante quase uma década ninguém sabia ao certo o que se passava comigo. e entretanto, dos cem, já tinha perdido trinta quilos mas houve uma médica temporária que mexeu na medicação e eu engordei novamente. só há dois anos é que a minha médica actual avançou com o prognóstico: desordem esquizoafectiva. confesso que senti-me tão leve por finalmente ter um nome para o boi. estou aqui hoje porque, há onze anos, a minha mãe me resgatou. e porque boas pessoas têm cuidado de mim. a parte mais difícil foi aceitar estar sempre medicada. ter tiques nervosos. não passar noites sozinha. estar reformada por invalidez absoluta. o que mudou na minha vida além da solidão? há dias em que não sou capaz de sair de casa. a vida acontece mais depressa do que a consigo processar. é difícil para mim discernir o que sinto, se não tiver tempo em silêncio. não quer dizer que seja reservada, quer dizer que preciso de mais tempo sozinha do que a maioria das pessoas. 

27
Jul19

vivendo com uma desordem esquizoafectiva

Ana de Deus

há onze anos que não passava uma noite sozinha. estou habituada a passar tardes sozinha. a deitar-me sem ninguém em casa, mas com a certeza que vêm de madrugada. por isso estive bem até o dia anoitecer. depois a minha mente começou a adrenar. reforcei a medicação com os comprimidos SOS e deitei-me pelas oito de noite. mas desde então que não tenho conseguido descansar de noite. fiquei descompensada, apesar de já não estar tão sozinha. comecei a acordar várias vezes durante a noite, só dormi bem uma vez esta semana. sem sonhos ou ideias absurdas. mas estou tão cansada que hoje estou grumpy e sem vontade de sair de casa. e é dia de brunch profissional. é suposto irmos à Baixa. só tive noites turbulentas quando comecei a adoecer e sentia-me desprotegida. e a semelhança assusta-me. 

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