o que mudou com a desordem esquisitó afectiva
em dois mil e oito, passei dos quarenta e cinco quilos para os mais de cem em três meses. passei a desconhecer o meu corpo. um dia baixei-me de cócoras, para pôr comida à gata, e cai para trás devido ao excesso de peso. mas tudo começou quando na minha cabeça eu sentia-me literalmente a partir em duas. sentia-me a enlouquecer. durante quase uma década ninguém sabia ao certo o que se passava comigo. e entretanto, dos cem, já tinha perdido trinta quilos mas houve uma médica temporária que mexeu na medicação e eu engordei novamente. só há dois anos é que a minha médica actual avançou com o prognóstico: desordem esquizoafectiva. confesso que senti-me tão leve por finalmente ter um nome para o boi. estou aqui hoje porque, há onze anos, a minha mãe me resgatou. e porque boas pessoas têm cuidado de mim. a parte mais difícil foi aceitar estar sempre medicada. ter tiques nervosos. não passar noites sozinha. estar reformada por invalidez absoluta. o que mudou na minha vida além da solidão? há dias em que não sou capaz de sair de casa. a vida acontece mais depressa do que a consigo processar. é difícil para mim discernir o que sinto, se não tiver tempo em silêncio. não quer dizer que seja reservada, quer dizer que preciso de mais tempo sozinha do que a maioria das pessoas. é consoante os acontecimentos. estou a tentar reencontrar-me.
