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busy as a bee on a rainy day

escrevendo ao sabor da corrente..

12
Jul19

é difícil ser imparcial

Ana de Deus

esta semana tive consulta de rotina no hospital e enquanto estava na sala de espera assisti a um espectáculo triste. não tenho o hábito de agarrar-me ao telemóvel para ocupar o tempo. por isso estava atenta às pessoas que estavam na sala. e entrou uma mulher com uma menina com síndrome de down. ela gritava sons, não articulava palavras. e gritava porque a mãe esteve o tempo todo agarrada ao telemóvel. a criança andava pela sala, chegava ao pé de nós com um sorriso lindo, batia palmas e dava-nos um abraço. e a mãe completamente alienada. nem uma vez levantou os olhos do ecrã. eu gostava de ser capaz de relatar os factos sem juízos de valor. não imagino a vida daquela mulher, mas era nítido que ela deixou a filha aos cuidados das pessoas que estavam na sala. e chamava-lhe: feia! má! não gosto de ti! houve uma altura em que a criança estava a gritar mais alto e a mãe disse: queres ver bonecos animados? e a menina bateu palmas, sossegou e correu para a mãe (que continuou a jogar sem levantar os olhos para a filha). a criança esperou pelos bonecos mas a mulher continuou a jogar e disse: a doutora deve estar quase a chamar-te. eu senti-me impotente perante aquela ausência de maternidade.

09
Jul19

memórias de uma infância feliz #1

Ana de Deus

quando eu era miúda, na década de 80, ao fim-de-semana fazíamos piqueniques ao ar livre. e houve um desses almoços em que escolhêmos um lugar com cobras. os meus pais não sabiam, como é óbvio, e quando o constataram viemos logo embora. eu estava sentada de costas para o tronco de uma árvore a ler um livro e ouvi um restolhar à minha direita. olhei e vi uma cobra a enroscar-se ao lado das minhas pernas, que estavam cruzadas. levantei-me calmamente, passei pelos meus pais e disse: está ali uma cobra. mais tarde a minha mãe disse que eles já a tinham visto e como não me quiseram assustar, estavam a observar como é que eu ia reagir. eu não me assustei, limitei-me a levantar e optar por continuar a minha leitura dentro do carro. já na altura a nossa pegada ecológica era mínima, limpávamos sempre tudo o que levávamos. e sempre que havia sol, passávamos o dia a brincar ao ar livre. 

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