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© busy as a bee on a rainy day

e se, de repente, o respondemos a um how are you e só nós pescámos a piada (as abelhas não voam quando chove) e vêmos que é um título fantástico para um blogue! pois.. cá estou então!

© busy as a bee on a rainy day

21
Jul19

surpresas boas e cerejas ao borralho

Ana de Deus

sob a luz do sol é tempo de caiar as paredes e as floreiras à entrada da casa. no terraço há um recanto à sombra de uma buganvília, que se estica toda cheia de folhas e flores. eu resguardo-me por aí, com uma taça de água e uma caixa de ração. estou como um lorde.

todos os anos, no bom tempo, a casa espanta o frio com a alvura da cal, o colorido das flores, as primeiras borboletas, o zumbido das abelhas. o mundo em festa. e eu? eu espreguiço-me e dou longos bocejos. como apraz a um elevado membro da nobreza.

os dias enchem-se de amizades (e a minha barriga de petiscos). a idade não perdoa o cansaço, mas a dona da casa é dos seres humanos mais simpáticos que conheço. deixa-me encher a cama dela de pêlo, inevitável apesar da aristocracia que me corre nas veias.

a herdade tem a casa em que vivemos os dois, na qual muitos se encontram para as refeições, e dois espaçosos bangalós onde conheço pessoas novas todo o ano. agora os campos estão pincelados de papoilas e margaridas. no Dia da Espiga há quem colha ramos alegres.

se lhes ponho os dentes, perco a compostura. não sou um rafeiro qualquer, tenho sangue azul. mas é mais forte que tudo! ainda estou para entender como é que, uma apaixonada por gatos, adoptou um cachorro, na velhice. o coração tem deveras razões que a razão desconhece.

18
Jul19

as linhas que nos tecem

Ana de Deus

as linhas que nos tecem

quando o sol sorria, ela sentava-se à sombra na esplanada no centro da vila, uns dias a observar a vida, outros a ler um livro. vivia numa casa cheia de luz, com um gato e muitas plantas a quem chamava de antepassados. gostava de lhes cantar, ao sabor da inspiração. as únicas cantigas que repetia eram a dos seus guias e a do amigo de quatro patas. gostava de ver comédias românticas. deixara de seguir as notícias, para preservar a alegria.

ele também era presença assídua na esplanada. sentava-se ao sol, quase sempre acompanhado por mulheres que mudavam como as estações do ano. ou então sozinho, em longas conversas ao telemóvel. ela observava. durante anos. sem nunca cruzarem um olhar. cada um no seu mundo. quando estava sozinho, namoricava as empregadas. tinha a vida preenchida de mulheres esporádicas. um dia levantaram-se os dois ao mesmo tempo. cruzaram o olhar.

as almas reconheceram-se. sem uma palavra, caminharam um para o outro. e beijaram-se suavemente. saboreando os lábios um do outro. como quando se recorda o verdadeiro tocar. o universo envolveu-os numa espiral de luz. por uns minutos, só o toque era real. ela lembrou a mornura do coração quando se é amada. ele lembrou as borboletas no estômago de quando se ama. sorriram, olhos nos olhos. sem uma palavra, cada um seguiu o seu caminho.

ela regressou a casa. a alma curada. abriu a porta do pátio ao gato e caiu no chão. o corpo morto.

16
Jul19

quem não tomou óleo fígado de bacalhau à colher?

Ana de Deus

óleo fígado de bacalhau à colher era o nosso suplemento de vitamina D no Inverno, durante a minha infância e adolescência. todos os anos era um martírio. esta substância é fundamental para a saúde dos ossos, do coração, do cérebro e no fortalecimento das defesas do organismo. 

esta já não sabia: a falta de vitamina D pode originar o aumento de peso. é que a escassez desta substância altera a produção de insulina, responsável pela redução da taxa de glicose no sangue. a queda brusca da glicemia é um dos principais estímulos para o aumento do apetite. 

12
Jul19

é difícil ser imparcial

Ana de Deus

esta semana tive consulta de rotina no hospital e enquanto estava na sala de espera assisti a um espectáculo triste. não tenho o hábito de agarrar-me ao telemóvel para ocupar o tempo. por isso estava atenta às pessoas que estavam na sala. e entrou uma mulher com uma menina com síndrome de down. ela gritava sons, não articulava palavras. e gritava porque a mãe esteve o tempo todo agarrada ao telemóvel. a criança andava pela sala, chegava ao pé de nós com um sorriso lindo, batia palmas e dava-nos um abraço. e a mãe completamente alienada. nem uma vez levantou os olhos do ecrã. eu gostava de ser capaz de relatar os factos sem juízos de valor. não imagino a vida daquela mulher, mas era nítido que ela deixou a filha aos cuidados das pessoas que estavam na sala. e chamava-lhe: feia! má! não gosto de ti! houve uma altura em que a criança estava a gritar mais alto e a mãe disse: queres ver bonecos animados? e a menina bateu palmas, sossegou e correu para a mãe (que continuou a jogar sem levantar os olhos para a filha). a criança esperou pelos bonecos mas a mulher continuou a jogar e disse: a doutora deve estar quase a chamar-te. eu senti-me impotente perante aquela ausência de maternidade.

09
Jul19

memórias de uma infância feliz #1

Ana de Deus

quando eu era miúda, na década de 80, ao fim-de-semana fazíamos piqueniques ao ar livre. e houve um desses almoços em que escolhêmos um lugar com cobras. os meus pais não sabiam, como é óbvio, e quando o constataram viemos logo embora. eu estava sentada de costas para o tronco de uma árvore a ler um livro e ouvi um restolhar à minha direita. olhei e vi uma cobra a enroscar-se ao lado das minhas pernas, que estavam cruzadas. levantei-me calmamente, passei pelos meus pais e disse: está ali uma cobra. mais tarde a minha mãe disse que eles já a tinham visto e como não me quiseram assustar, estavam a observar como é que eu ia reagir. eu não me assustei, limitei-me a levantar e optar por continuar a minha leitura dentro do carro. já na altura a nossa pegada ecológica era mínima, limpávamos sempre tudo o que levávamos. e sempre que havia sol, passávamos o dia a brincar ao ar livre. 

08
Jul19

deambulações

Ana de Deus

desde que descobri os mirtilos congelados do Pingo Doce que ando a comê-los a toda a hora. têm poucas calorias e muitas vitaminas e sais minerais. entre outras maravilhas, previnem infecções do aparelho digestivo mas, em excesso.. podem provocar úlceras! whaaa? eu gosto deles saídos do congelador, é quase como comer sorvete.

07
Jul19

duas abelhas e um brunch caseiro #1

Ana de Deus

hoje fiquei responsável pela salada. e a abelha-mãe pelos crepes. para a salada cortei melancia aos quadrados e rodelas de pepino. polvilhei com sementes de girassol. os ingredientes para os crepes são: três ovos inteiros, 100 gramas de farinha sem fermento, dois decilitros e meio de leite e uma pitada de sal. aquecer a frigideira, pôr um pouco de azeite e, quando quente, escorrer. dá cerca de seis crepes. o mês passado tentámos fazer panquecas mas, apesar de saborosas, queimaram sempre. hoje conseguimos o brunch caseiro mais bem sucedido até agora. não desfazendo dos ovos mexidos, do salmão fumado e das cerejas presentes anteriormente.

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